Vários Sem-Abrigo vagueiam as ruas da cidade do Porto
Hipotecaram as suas vidas desde que foram viver para as ruas acompanhados pelo vício. A droga, o álcool e os problemas familiares fizeram com que estes homens e mulheres abandonassem uma casa com tecto, para se tornarem sem-abrigo na cidade do Porto.
“A rua é a minha casa”
Sete anos, 2555 dias é o tempo que “Tiago” (nome fictício) vive nas ruas da cidade do Porto: “Perde-se a noção do tempo, os dias são todos iguais”. Agora, com 29 anos, confessou que “foi o vício da droga” que o desencaminhou.
“Sempre fui um jovem difícil. A minha mãe era a única que se preocupava comigo, mas não conseguiu com que eu ganhasse juízo”, afirmou “Tiago."
"Tiago" recordou alguns momentos marcantes na vida que levava: “O meu pai chegava a casa muitas vezes bêbado e batia na minha mãe. Assisti, muitas vezes, a cenas de violência e cheguei a um ponto que não aguentava mais. Meti-me com as pessoas erradas e hoje estou nesta vida."
“Sempre fui um jovem difícil. A minha mãe era a única que se preocupava comigo, mas não conseguiu com que eu ganhasse juízo”, afirmou “Tiago."
"Tiago" recordou alguns momentos marcantes na vida que levava: “O meu pai chegava a casa muitas vezes bêbado e batia na minha mãe. Assisti, muitas vezes, a cenas de violência e cheguei a um ponto que não aguentava mais. Meti-me com as pessoas erradas e hoje estou nesta vida."
"Não tenho amigos. Quer dizer, estes dois cães são os meus amigos. São a minha companhia”, referiu o Tiago, passando a mão pelo pêlo dos animais.
O jovem contou, ainda, de que forma ganha dinheiro: “Arrumo carros para ganhar algum, ou peço nas portas de mercados, onde costuma estar mais gente. Mas, esse dinheiro vai todo para o vício, porque os restaurantes, na hora do fecho dão os restos. Temos sempre comida”.
As equipas de rua que, à noite, confortam os estômagos dos sem-abrigo e aquecem os seus corpos cruzam-se várias vezes com a rotina de Tiago. “São uns chatos, mas ajudam-me. São os únicos que não nos olham como se fossemos lixo, mas estão sempre a tentar convencer-nos a deixar as ruas. No Inverno, se não fossem eles era muito complicado. Trazem-nos roupa, cobertores e alimentos quentes”, confessou “Tiago”, mostrando às vezes querer ter “uma vida normal, mas isso não passa de um sonho”.
Apesar de ser jovem, “Tiago” mostrou não querer regressar a casa: “Não me vou enganar a mim próprio. Abandonar a nossa casa é difícil, mas abandonar esta vida é muito pior. Já me habituei. A rua é a minha casa”, concluiu “Tiago”.
Número de toxicodependentes sem-abrigo aumenta
“A maioria dos sem-abrigo está na rua por causa das drogas e muitos dos que tiveram outros motivos, acabam por se tornar, também, dependentes delas. Há uns anos atrás, o típico sem-abrigo que dormia nas estradas era vítima da pobreza ou de um infortúnio na vida ao qual não conseguiu dar a volta. Hoje em dia tem vindo a aumentar o número de toxicodependentes, principalmente rapazes novos”, afirmaram os voluntários da Legião da Boa Vontade (LBV), numa entrevista ao Jornalismo Porto Net (JPN).
Para além LBV há outras instituições que fazem rondas nocturnas e casas de reinserção social. “Nota-se pouco esforço da parte dos sem-abrigo para mudarem de rumo. Eles vivem tantos anos naquela vida que lhes faz confusão entrar noutra rotina como, ter um emprego, uma cãs e responsabilidade”, concluem os voluntários da LBV.
As Ruas no Feminino
Na vida de “Margarida” (nome fictício) as coisas foram acontecendo.
“Tinha 14 anos quando os meus pais se divorciaram e passei a viver com uma tia. Aos 15 já andava na noite, a cair de bêbada. Com a morte da minha tia, as coisas pioraram muito. Comecei com as drogas mais leves, como fumar um charro, mas depois, os mesmos amigos que me deram a experimentar um charro, deixaram-me experimentar drogas mais pesadas. Na altura achei que só fosse experimentar uma vez, mas depois…Não tinha a quem dar justificações. Aos 21 anos comecei a viver na rua”, confessou "Margarida", hoje com 30.
“Margarida” afirmou que sonha um dia mudar de vida: “Gostava muito de ter filhos, casa, marido e um trabalho”.
No entanto, a mesma mulher que diz querer ter filhos, mostrou ser incapaz de abandonar a vida que leva: “Desde que me tornei sem-abrigo, tentei fazer tratamentos, mas fico um mês limpa e no outro estou a cair pelas ruas. É muito difícil!”.
Na fila à espera da sua “Sopa dos Pobres” confessou achar ser uma mulher sem um futuro melhor: “Quando olho à minha volta vejo muitas mulheres bonitas. Já fui muito bonita, mas agora as coisas são diferentes. A minha cara tem as marcas dos erros que cometi. Tenho muito mau aspecto”.
No entanto, a mesma mulher que diz querer ter filhos, mostrou ser incapaz de abandonar a vida que leva: “Desde que me tornei sem-abrigo, tentei fazer tratamentos, mas fico um mês limpa e no outro estou a cair pelas ruas. É muito difícil!”.
Na fila à espera da sua “Sopa dos Pobres” confessou achar ser uma mulher sem um futuro melhor: “Quando olho à minha volta vejo muitas mulheres bonitas. Já fui muito bonita, mas agora as coisas são diferentes. A minha cara tem as marcas dos erros que cometi. Tenho muito mau aspecto”.
“Desisti de procurar uma vida melhor, de procurar emprego. Com o meu aspecto ninguém me dá emprego. Mas continuo a sonhar”, concluiu “Margarida”.
As opções dos sem-abrigo
“No fim do mês, são muitos os sem-abrigo que utilizam o meu táxi. Nessa altura eles recebem o Rendimento Social de Inserção (RSI) e procuram os bairros onde sabem que vendem drogas”, referiu Victor Carneiro, taxista no Porto há mais de 30 anos.
O taxista mostrou que não se mete na vida de ninguém que pede os seus serviços: “Eu sei que eles vão à procura de droga, tendo dinheiro no bolso. Mas, não faço qualquer tipo de comentário. Pedem-me para fazer um serviço e eu faço porque tenho que ganhar dinheiro também”.
Portugal tem uma das mais elevadas taxas de pobreza da União Europeia. Segundo dados fornecidos por Paula França, coordenadora da rede interinstitucional de apoio aos sem abrigo da cidade do Porto no âmbito da estratégia nacional de apoio aos sem abrigo (NPISA) da Cidade do Porto, cerca de 62% dos sem-abrigo são do sexo masculino, sendo que 38% são do sexo feminino, número esse, que tem vindo a aumentar. Os mesmos dados revelaram que os sem-abrigo têm entre 20 a 50 anos, na sua maioria são divorciados, com escolaridade baixa, desempregados, incapacitados ou desocupados (nunca trabalharam) e cerca de 50% são portadores de doenças que, rejeitam tratamento. Como fontes de rendimento têm o Rendimento Social de Inserção (RSI) e Pensões de invalidez.
“A maioria das pessoas que recorrem aos serviços e equipas de ajuda, não se encontram disponíveis para participarem em projectos de vida. Uma das dificuldades encontradas na coordenação das equipas de rua, é o facto de várias instituições acompanharem o mesmo abrigo sem saberem”, afirmou Paula França.
No Porto são várias as instituições que trabalham com os sem-abrigo e que criam as mínimas condições para ajudarem estas pessoas. Exemplo disso é a AMI (Assistência Médica Internacional) que abriu um Centro de Alojamento no Porto, em 2006. O objectivo destes equipamentos sociais é proporcionar acolhimento temporário a indivíduos sem-abrigo, proporcionar um espaço de promoção, em que se pretende que o indivíduo percepcione a sua situação como sendo de mudança e não algo com tendência para o conformismo e acomodação. A admissão dos utentes faz-se, regra geral, por contacto de instituições e organizações que trabalham com situações que se podem definir como de sem-abrigo (de que são exemplo as Equipas de Rua e os Centros Porta Amiga da AMI).
As equipas de rua da AMI permite conceder apoio social, psicológico, e na área de saúde.
A Santa Casa da Misericórdia do Porto, com o projecto “Casa da Rua” presta vários serviços. Balneários, Cantina/Refeitório, Lavandaria, Sala de Convívio, Gabinete de apoio psicológico são alguns dos serviços prestados por esta casa, pois os funcionários garantem que “na rua é impossível tratar qualquer doente”.
Através das páginas on-line destas associações sabe-se que qualquer pessoa pode ajudar através de três formas: voluntariado, donativos em dinheiro por transferência bancária ou géneros (vestuário e alimentos). E, ainda existe uma outra forma, que nem todas as instituições aderiram – tornarem-se sócios – que possibilita, através de uma pequena quantia mensal, a expansão das actividades da própria instituição.
Um Exemplo de Força de Vontade
Nem todos os casos são iguais, nem todos acabam por ficar eternamente na rua. A história de Liz Murray, uma jovem, norte-americana, de 29 anos, já deu origem a um livro e a um telefilme, que foi nomeado para três Emmys:“Homeless to Havard: The Liz Murray Story”.
Liz e a sua irmã nasceram no Bronx, no seio de uma família hippie que consumia drogas. Quando a mãe morreu com sida, o pai deixou de pagar a casa onde viviam. Aos 15 anos, Liz tornou-se sem-abrigo. Apesar de não ter casa, completou o liceu em apenas dois anos, na Academia de Ciências Humanas em Chelsea. Um dia, visitou a Universidade de Havard, onde ficou impressionada. Concorreu a uma bolsa de Estudo e, no ano 2000 começou a sua licenciatura em Psicologia. Em 2009 já estava formada.
Joana Silva






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